Hoje na volta da faculdade no ônibus de sempre onde geralmente eu durmo a viajem quase toda tinha uma mulher negra, na casa dos 30 a 40 anos, as vezes quando as pessoas são realmente negras (não mestiças) fica difícil saber qual a idade certa, e essa mulher parecia ter um pedigree dos bons; Mas a razão que me forçou a escrever sobre ela não existiu somente por causa da cor da sua pele, e nem pelo fato dela ser um quadro vivo da soma de todos os males sociais de nossa época... ela tinha consigo e para até o fim da vida uma queimadura enorme, borradamente cicatrizada, que ia desde a batata da perna até o rosto, subindo pelo lado esquerdo do corpo; Logo quando pedi pra mulher branca de óculos que sentava bem atrás dela me dar a licença pra eu poder sentar no lado da janela, quando ela virou de lado e quando eu me apressei e passei com dificuldade por que a minha bolsa excepcionalmente hoje estava pesada e cheia, fazendo com que eu me atrapalhasse um pouco, eu parei, e vi a queimadura no braço da mulher negra e fiquei uns três ou quatro segundos paralisado olhando pra ela, em pé e ali entre a mulher branca de óculos que me dava a licença e a mulher negra da "tatuagem de fogo" sentada de costas a minha frente. Ela levava consigo no colo uma sacola grande, dessas de atacadão, cheia de roupas eu acho, não tenho certeza, não consegui reparar, quando notei que a mulher branca esperava para voltar a sua posição normal e eu tava ali empatando, eu terminei de sentar com minha bolsa pesada...
Algum tempo depois, quando eu acordo a mulher branca que apertava minha coxa direita com sua coxa esquerda não tava mais do meu lado no banco, porem, a mulher negra fugindo do sol, estava no banco a minha direita agora, do outro lado do ônibus, na sombra, olhei novamente pra seu braço queimado, agora não precisava mais me esforçar escondendo meu olhar, não sei como descrever meu olhar a olha-la nessa hora, foi ai que eu vi que a cicatriz era maior do que eu tinha visto, vinha da panturrilha esquerda subindo pelo joelho e coxa, passando por debaixo da pouca roupa dela, tomando conta do braço esquerdo inteiramente e a grande parte esquerda da sua face. Não sei se vocês sabem como é uma cicatriz de queimadura, e com certeza aquela era uma de 3º grau; É um tanto difícil de descrever, parece como se ela, a mulher negra, não pudesse dobrar o braço, pois, não havia pele suficiente pra isso; A pele, a pele era demasiadamente escura e cruelmente enrugada, parecendo como se seu braço tivesse sido pintado com uma tinta preta fosca e essa tinta se endurecesse numa casca torta e maleável. Realmente era uma coisa horrível de se ver.
Olhei bem, olhei bem...
Tive sorte dela não voltar sua atenção pra mim, me sentiria um lixo se ela tivesse notado que eu estava a olhá-la com desdém (eu acho), parei repentinamente de olhar e pensei nela, pensei no que ela gostaria que os outros pensassem dela, tomei a decisão de que ela gostaria de ser tratada como uma pessoa normal, de aparência normal, com uma vida normal, com quem sabe, uma ou duas marcas de espinhas na cara.
Quando eu cheguei em casa, e comecei a escrever esse texto, eu lembrei de outra coisa... Lembrei que realmente... Ela era linda...