04 dezembro 2006

Mulher Negra

Hoje na volta da faculdade no ônibus de sempre onde geralmente eu durmo a viajem quase toda tinha uma mulher negra, na casa dos 30 a 40 anos, as vezes quando as pessoas são realmente negras (não mestiças) fica difícil saber qual a idade certa, e essa mulher parecia ter um pedigree dos bons; Mas a razão que me forçou a escrever sobre ela não existiu somente por causa da cor da sua pele, e nem pelo fato dela ser um quadro vivo da soma de todos os males sociais de nossa época... ela tinha consigo e para até o fim da vida uma queimadura enorme, borradamente cicatrizada, que ia desde a batata da perna até o rosto, subindo pelo lado esquerdo do corpo; Logo quando pedi pra mulher branca de óculos que sentava bem atrás dela me dar a licença pra eu poder sentar no lado da janela, quando ela virou de lado e quando eu me apressei e passei com dificuldade por que a minha bolsa excepcionalmente hoje estava pesada e cheia, fazendo com que eu me atrapalhasse um pouco, eu parei, e vi a queimadura no braço da mulher negra e fiquei uns três ou quatro segundos paralisado olhando pra ela, em pé e ali entre a mulher branca de óculos que me dava a licença e a mulher negra da "tatuagem de fogo" sentada de costas a minha frente. Ela levava consigo no colo uma sacola grande, dessas de atacadão, cheia de roupas eu acho, não tenho certeza, não consegui reparar, quando notei que a mulher branca esperava para voltar a sua posição normal e eu tava ali empatando, eu terminei de sentar com minha bolsa pesada...

Não consegui me conter e não demorei muito pra fingir que me apoiava no ferro do banco da frente para poder ver melhor a cicatriz da mulher negra, fiquei ali, olhando para ela e pra queimadura, demoro pra eu me tocar que ela estava acompanhada de um garoto, também negro, com uns sete ou oito anos, bem bonito por sinal, acho que era seu filho... Foi nessa hora que eu pensei em muitas coisas ao mesmo tempo, pensei nas estatísticas, pensei no preconceito, pensei na vida dela, pensei em como ela tinha ganhado aquela coisa, pensei também em mim em relação a ela, pensei no que ela deveria dizer paras pessoas que tivessem coragem de perguntar, pensei em quando ela se olhava no espelho, e minha criatividade bizarra me fez o favor de mostrar como deveria ser, pensei em alguma coisa que o estado pudesse fazer em relação a ela, na sua auto-estima, pensei também em como seria se fosse em mim que aquela cicatriz estivesse estampada pra quem quisesse ver, pensei em como seria a vida dela se ela não tivesse ganhado a cicatriz, tenho certeza que a vida dela antes de ter ganho a cicatriz era diferente e pensei também em como foi essa mudança; É semi-hipocrizia dizer que quase pude sentir o que seria ter aquilo em mim, pois, com certeza não sei como é ter esse tipo de coisa...

Daí, deixei de olhar, e tentei realmente dormir um pouco, minha ressaca da noite passada não dava trégua naquela manhã e com o balanço ininterrupto do ônibus ajudando, apaguei.

Algum tempo depois, quando eu acordo a mulher branca que apertava minha coxa direita com sua coxa esquerda não tava mais do meu lado no banco, porem, a mulher negra fugindo do sol, estava no banco a minha direita agora, do outro lado do ônibus, na sombra, olhei novamente pra seu braço queimado, agora não precisava mais me esforçar escondendo meu olhar, não sei como descrever meu olhar a olha-la nessa hora, foi ai que eu vi que a cicatriz era maior do que eu tinha visto, vinha da panturrilha esquerda subindo pelo joelho e coxa, passando por debaixo da pouca roupa dela, tomando conta do braço esquerdo inteiramente e a grande parte esquerda da sua face. Não sei se vocês sabem como é uma cicatriz de queimadura, e com certeza aquela era uma de 3º grau; É um tanto difícil de descrever, parece como se ela, a mulher negra, não pudesse dobrar o braço, pois, não havia pele suficiente pra isso; A pele, a pele era demasiadamente escura e cruelmente enrugada, parecendo como se seu braço tivesse sido pintado com uma tinta preta fosca e essa tinta se endurecesse numa casca torta e maleável. Realmente era uma coisa horrível de se ver.

Olhei um bom tempo, ela estava entretida com o garoto que falava alguma coisa para ela intusiadamente, parecia querer-lhe mostra alguma coisa ou estava pedindo algo, não sei dizer, tive pena, não sou de ferro, nem hipócrita o suficiente para mentir, odeio sentir essas coisas, se pudesse não teria pena de ninguém, mas, foge das minhas mãos fazer com que isso se torne realidade.

Olhei bem, olhei bem...

Tive sorte dela não voltar sua atenção pra mim, me sentiria um lixo se ela tivesse notado que eu estava a olhá-la com desdém (eu acho), parei repentinamente de olhar e pensei nela, pensei no que ela gostaria que os outros pensassem dela, tomei a decisão de que ela gostaria de ser tratada como uma pessoa normal, de aparência normal, com uma vida normal, com quem sabe, uma ou duas marcas de espinhas na cara.

Não olhei novamente por um bom tempo, a minha viajem de ônibus é longa, quase atravesso a cidade inteira do Recife pra chegar da minha casa na faculdade, e ela não descia, passamos pela marcenaria que fica na curva que liga meu bairro a rua principal da cidade onde eu moro, e ela não desceu, acabei por olhar de novo, olhei pra sua mão, que segurava a sacola grande no seu colo, e notei que alguns dos dedos dessa mão dela estavam "cumidos", o fogo deve ter sido tão forte que queimou os seus dois últimos dedos da sua mão esquerda, e a cor deles... A cor era clara, cor de carne.

Minha parada chegou e eu desci na frente da padaria como sempre e ela seguiu no ônibus, deve ter decido na integração do terminal, pra pagar uma passagem a menos e ir pra onde quer que fosse...


Quando eu cheguei em casa, e comecei a escrever esse texto, eu lembrei de outra coisa... Lembrei que realmente... Ela era linda...

Posted by Cachorro Louco at 1:22 AM