04 dezembro 2006

Ela

eu passava tardes com ela quando era pequeno, minha mãe gostava, a companhia dela era diferente da companhia dos outros meninos da minha idade, que minha mãe sabia que trariam má influencia pro seu primeiro pequeno garoto prodígio.
e passavam-se inúmeras tardes, nós dois juntos, sozinhos, eu e ela, em cima do batente da antiga casinha de cachorro, a olhar a rua, a olhar o tempo nus olhar.

era como se aquele batente fosse só meu e dela, somente cabíamos nós dois lá.

ela era fria, sempre me abraçava por traz, com a boca na minha nuca a sussurrar, me deixava quieto em seus braços gelados e seguros que me passavam calma.
eu gostava, de certa forma, era ignorante, e quando se é ignorante as coisas se tornam mais fáceis.
não que eu me entrega-se, não era isso, era na verdade uma parceria, igual a uma amizade, eu acho.
é, pode se dizer que sim, éramos amigos, não chegávamos a conversar no entanto éramos amigos.

nós nus sentíamos satisfeitos um com a companhia do outro.

ainda não existiam segredos e também não existiriam, não tínhamos vergonha nem teríamos, também não teríamos raiva, também não teríamos inveja, vontade de se provar, medo, ou compaixão, ou saudade... não teríamos nada disso.

mas as coisas as vezes acabam por mudar e nem sempre é pra melhor.

agora não consigo mais ficar no mesmo aposento que ela.
fujo dela, tento me esconder por de trás das outras pessoas para que ela não venha me ver.
não existe mais o pequeno batente da antiga casinha de cachorro pra nos dois ficarmos lá juntos , só eu e ela, olhando o tempo nus olhar.
agora ela é mais fria e gelada do que antigamente, agora ela me aperta forte com suas unhas e sussurra nos meus ouvidos meus próprios erros pra mim mesmo.

sem pena, sem dó.

e ela gosta disso, gosta de me ver chorar, faz questão até.
me caça pelos cantos e não me deixa esquecer da pessoa que me tornei, dos erros que cometi, das chances que desperdicei, das pessoas que deixei infelizes, inacabadas, incompletas.

hoje me dei de cara novamente com ela, nós dois não sorrimos um pro outro, não existe razão para tal, pois, sabemos tudo sobre mim e já não existe mais graça.

antigamente eu gostava dela, antes eu conseguia olhar nos seus olhos.
exatamente como fazíamos com o tempo, juntos, sozinhos, somente nós dois e o tempo.
queria poder fazer as pazes com ela e não sentir mais seu braço frio me cobrir a noite fazendo minha espinha gelar e acabar por ver meu travesseiro ao lado abaixar, tal qual fosse uma cabeça a pousar nele.

acabo fechando meus olhos e dizendo baixinho para minha companheira indesejável:


vem, solidão...

Posted by Cachorro Louco at 1:34 AM